3/08/2008

COMPANHIA DE DANÇA PAULO RIBEIRO, BALLET E OUTRAS DANÇAS


HOMENAGEM AO BALLET

OS SAPATOS DA BAILARINA

Os sapatos da bailarina são uns sapatos singulares, únicos, especiais..Destinam-se ao mundo do ballet e têm, portanto, um uso específico. Não são uns sapatos neutros, cinzentos, indistintos, banais, vulgares, uns sapatos que a gente usa, estoira, deita fora e compra outros, sem muitas vezes se lembrar da sua forma e da sua cor, depois de os deixar de usar e mesmo às vezes em pleno uso.
À semelhança dos sapatos da bailarina, também as sapatilhasdo atleta de fundo têm um uso específico, o correr, também elas se distinguem por algumas características, tais como o seu piso, o reforço do calcanhar, a maleabilidade do peito do pé, etc. E o mesmo se pode dizer das chuteiras do jogador de futebol e de um maneira geral dos pedibus calcantibus de qualquer desporto. A verdade, porém, é que há uma distância enorme entre os sapatos da bailarina, por um lado, e as sapatilhas dos atletas em geral e as chuteiras dos jogadores de futebol, por outro lado.

O que distingue os sapatos da bailarina dos sapatos em geral é em primeiro lugar a sua leveza. Esta qualidade salta bem à vista se compararmos os sapatos da bailarina com as botas grossas, pesadas, cheias de chulé, de lama e de poeira do campónio, mas já não é tão evidente se o termo de comparação forem por exemplo as sapatilhas do atleta, especialmente do saltador em altura, que devem ser, por motivos óbvios, tão leves como os sapatos da bailarina.

Tal como o atleta que salta em altura, a bailarina eleva-se, mais leve que o ar, nas três dimensões do palco, que não é só as tábuas de madeira, o cenário e a iluminação, mas é principalmente aquilo que não se vê, a estrutura digamos invisível da cena. Mas diferentemente do saltador em altura, a bailarina não pula, voa, isto é, desenha, com os seus movimentos graciosos, a poética coreografia da dança.

Por estas características que se ligam à essência do ballet, já estamos a ver que uma das principais qualidades dos sapatos da bailarina é a leveza. A leveza é evidentemente importante, mas não é a única qualidade importante, pois já vimos que várias actividades também a exigem. E aliás, paradoxalmente, os camponeses dançam com os seus socos toscos e pesados nos ranchos folclóricos de todo o mundo.

Mas a dança dos camponeses, embora importante do ponto de vista etnográfico, não tem nada a ver com a essência da dança tal como a concebemos. A dança tal como a concebemos exige uma vida inteira de treino para, em momentos de grande beleza estética, a bailarina se libertar como um pássaro da adstringência redutora da lei da gravidade.

O calçado da bailarina exprime evidentemente a leveza que eu acabo de referir, mas também exprime a extrema delicadeza que é apanágio dos mais sublimes momentos românticos do ballet clássico.

Apesar de servirem de estilóbato às colunas jónicas que são as pernas da bailarina, os sapatos da bailarina não precisam de ser tectónicos, pois as penas da bailarina, tal como o seu torso, os seus braços e o seu rosto, são um edifício feito de graça e portanto apto a permanecer suspenso

para além de todos os limites e restrições da condição humana.

Pode mesmo dizer-se que os sapatos da bailarina têm a ver com os pés da bailarina na medida em que os pés da bailarina são tão delicados como as aristocráticas mãos das mais belas madonas da arte bizantina e neste sentido deverá concluir-se que os sapatos da bailarina assentam como luvas nos pés da bailarina.

Leveza, delicadeza e também graça são qualidades que se costumam atribuir aos anjos e a algumas mulheres belas. Mas é sobretudo à bailarina, anjo e mulher, que essas qualidades convêm. E daí que também o bailarino não se consiga eximir à conotação feminina que é, no seu imo, uma das principais características do mundo do ballet.

Mundo do ballet que desenha a beleza nos arabescos saltitantes de uma sequência de movimentos, que se abre e se aprofunda mo espaço e no tempo. Mundo do ballet que é o corpo todo da bailarina, mas que na sua mais íntima essência são as pernas e os pés, que por isso mesmo se querem tão espirituais como o rosto e, igualmente como o rosto, espelhos da alma.

E a alma calça-se com leveza e delicadeza com os graciosos sapatos da bailarina. E quando a bailarina morre, como acontece no final do filme Os sapatos Vermelhos, é por lhe descalçarem os sapatos que a alma da bailarina não pode subir ao céu.



O LAGO DOS CISNES

COMPANHIA DE DANÇA

PAULO RIBEIRO

BALLET E OUTRAS DANÇAS

PAULO RIBEIRO


LEONOR KEIL



RUDOLF NUREYEV E MARGOT FONTEYN




NIJINSKY

NIJINSKY

NIJINSKY

NIJINSKY EM L' APRÈS MIDI D'UN FAUNE

NIJINSKY


NIJINSKY


NIJINSKY


ALTOS E BAIXOS DA
COMPANHIA PAULO RIBEIRO

A Companhia Paulo Ribeiro é uma companhia de dança com uma certa notoriedade a nível nacional. De vez em quando até acontece aparecerem notícias sobre espectáculos da companhia em jornais e revistas de âmbito nacional. O Paulo Ribeiro é o director e o coreógrafo da companhia e é ao mesmo tempo o director do Teatro Viriato. Dava-lhe um certo jeito a companhia ter a sua residência em Viseu e a verdade é que o conseguiu, pois a autarquia abriu-lhe as suas portas e arranjou-lhe inclusivamente um local para ensaiar. Temos visto todos os espectáculos de dança que a companhia tem exibido no Teatro Viriato. Gostámos dos primeiros espectáculos que tiveram lugar no teatro municipal. Esses espectáculos tiveram o nível mínimo exigido a uma companhia conhecida e respeitada em todo o país. Foram espectáculos sérios e dignos. Ainda estávamos longe do desnorte que se verificou nos últimos anos.
Nós confessamos, no entanto, que nunca tivemos uma admiração incondicional pela companhia e pelos seus bailarinos.
Com efeito, as nossas preferências em termos de dança nacional vão para o Ballet Gulbenkian e para a Companhia Portuguesa de Bailado. É que essas companhias sempre tiveram bons bailarinos e óptimos coreógrafos. Destes últimos é justo destacar o Jorge Salavisa, que trabalhou para as duas companhias com resultados brilhantes. O Jorge Salavisa é de longe o melhor coreógrafo português e talvez por isso algumas pessoas o tratam desdenhosamente por Jorge Salabicha. Mas o Jorge está muito acima dessa gente medíocre, invejosa e maledicente que infelizmente pulula no nosso país. O Jorge, com efeito, é tão bom e tão competente que nas companhias onde trabalha acontece sempre ballet. Já o mesmo não podemos dizer da companhia do Paulo Ribeiro, pois nela há muito tempo que não acontece ballet.
Mas há sempre uma justificação para todas as situações e mesmo até para esta. O Paulo Ribeiro até pode dizer que a sua companhia exibe dança moderna e contemporânea e que essa dança nada tem a ver com o ballet. Claro que a Companhia Paulo Ribeiro não tem nada a ver com o ballet clássico e com o ballet romântico e também tem muito pouco a ver com a dança do extinto Ballet Gulbenkian. Mas o ballet moderno não tem forçosamente de ser um anti-ballet ou o grau zero do ballet ou, ainda pior, uma mistela que não é ballet nem teatro nem é nada. Ainda recentemente tivemos a prova de tudo isto que aqui afirmamos.
Estamos agora a referir-nos à companhia de dança da Olga Roriz e ao seu bailado Paraíso. O espectáculo desta companhia a que assistirmos no Teatro Viriato é uma vibrante e sentida homenagem ao musical norte-americano que se faz nos teatros da Broadway, em Nova Iorque. Os bailarinos cantaram, dançaram e interpretaram cenas faladas. O espectáculo incluiu composições de Gershwin, Nino Rota e Bernstein, assim como canções de Dean Martin, Frank Sinatra, Edith Piaf e Carmen Miranda. No final, a numerosa assistência que enchia a sala do teatro municipal aplaudiu demoradamente e de pé o fabuloso espectáculo de bailado da Olga Roriz. O espectáculo é obviamente um espectáculo de dança contemporânea. No entanto existe ballet no Paraíso da Olga Roriz. Mas afinal porque é que existe ballet no espectáculo da companhia de dança da Olga Roriz e não existe ballet na maioria dos espectáculos da companhia de dança do Paulo Ribeiro? Afinal, o que é o ballet? Já respondemos a esta pergunta várias vezes, mas vamos fazê-lo uma vez mais. Para nós o ballet é energia, elegância, graça, pose e atitude, no ballet o homem liberta-se dos constrangimentos e das limitações do corpo e da lei da gravidade e é ave e é anjo e projecta-se no ar e dá saltos acrobáticos e faz coisas incríveis do ponto de vista físico, que deitam por terra a teoria generalizada de que os bailarinos são seres efeminados.
O ballet é tudo isto e também é a superação da chateza do quotidiano e da forçada e inevitável convivência com as pessoas feias, cinzentas e desinteressantes que nos rodeiam, o ballet é a figura em mármore ou em bronze da Grécia antiga em movimento, o ballet é o efebo de Maratona a dançar sobre as salsas e serenas ondas do mar, o ballet é a Vénus de Milo a bailar nos primaveris e floridos canteiros dos jardins suspensos da Babilónia.
No ballet nem sequer há gente gorda, feia e mal feita, e muito menos gente quarentona ou gente velha, no ballet há apenas gente muito bela e também muito nova, com a conhecida excepção do genial bailarino Rudolf Nureyev, que foi belo e novo até morrer, e por isso dançou até ao seu último suspiro, homem mais belo e bailarino mais etéreo nunca existiram nem jamais existirão neste mundo. Com efeito, Rudolf Nureyev foi cem por cento bailarino. Bastava vê-lo na rua a passear para chegarmos a essa conclusão.
Pelo contrário, aos bailarinos da Companhia Paulo Ribeiro basta vê-los a actuarem em palco para se chegar à conclusão de que não são bailarinos, com a possível excepção da Leonor Keil, que ultimamente nos tem desiludido mas que já vimos com bons desempenhos em alguns espectáculos. Mas esses espectáculos já foram apresentados há muito tempo e a Leonor Keil encontra-se actualmente na curva descendente da sua carreira. E a Companhia Paulo Ribeiro, com Silicone Não e com Medeia, caminha perigosamente para o grau zero do ballet ou mesmo para o anti-ballet. O ballet nada tem a ver com esses e com outros espectáculos da Companhia Paulo Ribeiro. O ballet é outra coisa completamente diferente. O ballet é a melodia do corpo em movimento. Dançado pelos melhores bailarinos, o ballet até pode ser uma arte divina. Os melhores bailarinos de todos os tempos foram Vaslav Nijinsky (nascido em 1888) e Rudolf Nureyev (1938-1993). Deste último já falámos anteriormente. E falámos com conhecimento de causa, pois temos um DVD com o ballet O Lago dos Cisnes, em que ele e Margot Fonteyn são os principais bailarinos. A companhia de dança é o Royal Ballet, de Londres, onde ambos estavam integrados. Embora originário da Rússia, então União Soviética, Nureyev fez a maior parte da sua carreira na Inglaterra, no Royal Ballet. Para o efeito, aproveitou uma digressão pela Europa para pedir asilo político. A sua actuação em O Lago dos Cisnes é apenas um dos inúmeros desempenhos de Nureyev, que interpretou mais de cem personagens diferentes e revolucionou, com a sua enorme personalidade todo o mundo da dança.
Vaslav Nijinsky, que viveu alguns anos antes de Nureyev, também era russo. Actuou durante algum tempo no ballet do Teatro Marinsky, em S. Petersburgo, mas aí protagonizou um enorme escândalo, pois dançou o bailado Giselle num espectáculo com a família imperial presente, sem os calções a cobrir-lhe o leotard. Convém esclarecer os leitores menos versados no vocabulário específico do ballet que o leotard é a malha justa usada pelos bailarinos. E convém esclarecer também que essa malha é tão justa que deixa bem visíveis os contornos do sexo dos bailarinos. E daí a necessidade de utilizar os calções. Mas Nijinsky actuou sem calções e em consequência disso foi expulso do ballet do Teatro Marinsky. Parece que Diaghilev esteve por detrás deste escândalo, pois queria o bailarino nos seus ballets russos. Sergei Diaghilev era o director dos ballets russos e propunha-se dar umas valentes sacudidelas no mundo estagnado da dança. Nijinsky fez a maior parte da sua carreira de bailarino nos ballets russos. Diaghilev, que entretanto se apaixonou por Nijinsky, foi seu amante e seu tutor. Ao contrário de Nijinsky, que era um ser muito frágil fora do palco, Diaghilev tinha uma personalidade muito forte. Mas Diaghilev também tinha os seus pontos fracos: tinha medo de andar em navios e tinha medo do mar, por exemplo. E assim, numa digressão pela América em que Diaghilev não foi por causa dos seus medos Nijinsky casou-se com uma colega bailarina. Louco de ciúmes, Diaghilev expulsou-o dos ballets russos. Afastado do mundo do ballet e sem a protecção de Diaghilev, Nijinsky acabou por enlouquecer, tendo passados os últimos dias da sua vida num hospital psiquiátrico.
E assim terminou, longe do mundo do ballet, a vida do fabuloso bailarino Nijinsky, que no L’ Après Midi d’ un Faune, de Claude Debussi, atingiu o mais alto cume da nobre arte da dança. Neste sensacional bailado, genialmente interpretado e coreografado por Nijinsky, os bailarinos actuavam de perfil e não de frente para os espectadores. Quanto a Nijinsky, a sensualidade transbordava do fauno por ele interpretado. Ora essa sensualidade era afrontosa para os padrões da época. Mas o maior escândalo aconteceu no final do bailado, com o bailarino simulando masturbar-se em pleno palco. Nijinsky era realmente um génio da dança com a alma de um fauno. De Nijinsky se pode dizer que para ele dançar era acompanhar a música interior que torna divino o meramente humano, era ser ao mesmo tempo deus e demónio pela sublimidade do movimento.


UM ESPECTÁCULO DE BALLET SEM BALLET
SILICONE NÃO


Silicone Não foi anunciado como um espectáculo de ballet da Companhia Paulo Ribeiro, mas nós não vimos ballet nenhum e fomos duas vezes ao Teatro Viriato ver o dito espectáculo de ballet. Francamente, pensamos que não se deve anunciar um espectáculo de ballet e depois apresentar em cena uns bailarinos que passam todo o tempo do espectáculo ou a fazerem habilidades circenses ou a atirarem-se para o chão ou a sacudirem-se de uma maneira contínua, como se tivessem chatos e piolhos a morderem-lhes o corpo todo.
O ballet é outra coisa, o ballet é energia, elegância, graça, pose e atitude, no ballet o homem liberta-se dos constrangimentos e das limitações do corpo e da lei da gravidade e é ave e é anjo e projecta-se no ar e dá saltos acrobáticos e faz coisas incríveis do ponto de vista físico, que deitam por terra a teoria generalizada de que os bailarinos são seres efeminados.
O ballet é tudo isto e também é a superação da chateza do quotidiano e da forçada e inevitável convivência com as pessoas feias, cinzentas e desinteressantes que nos rodeiam, o ballet é a figura em mármore ou em bronze da Grécia antiga em movimento, o ballet é o efebo de Maratona a dançar sobre as salsas e serenas ondas do mar, o ballet é a Vénus de Milo a bailar nos primaveris e floridos canteiros dos jardins suspensos da Babilónia.
No ballet nem sequer há gente gorda, feia e mal feita, e muito menos gente trintona ou gente velha, silicone não, no ballet há apenas gente muito bela e também muito nova, com a conhecida excepção do genial bailarino Rudolf Nureyev, que foi belo e novo até morrer, e por isso dançou até ao seu último suspiro, homem mais belo e bailarino mais etéreo nunca existiram nem jamais existirão neste mundo.
Com efeito, Rudolf Nureyev foi cem por cento bailarino. Bastava vê-lo na rua a passear para chegarmos a essa conclusão. Pelo contrário, aos intérpretes do Silicone não, basta vê-los a actuarem em palco para se chegar à conclusão de que não são bailarinos, com a possível excepção da Leonor Keil, que já temos visto em outros espectáculos, com bons desempenhos. O ballet não tem portanto nada a ver com o Silicone Não. Pessoas a sacudirem-se, a espreguiçarem-se, a vergastarem-se, a crucificarem-se e a atirarem-se para o chão, isso não é ballet.
E depois há ainda a acrescentar que o ballet, mesmo aquele que descreve uma história, o que nem sequer é o caso, não precisa de texto nenhum para nada. Ou os espectadores já sabem a história ou então lêem-na no programa e decoram-na antes do espectáculo começar. Tudo isto pode efectivamente acontecer no ballet clássico e romântico, pode acontecer, por exemplo, no melhor ballet de todos os tempos, O Lago dos Cisnes, mas nunca nenhum coreógrafo teve a ousadia de sobrepor um texto com palavras explicativas à fabulosa música do divino Tchaikovsky, o que não seria aliás só ousadia, seria também ignorância, petulância, estupidez e, além do mais, constituiria um crime.
Ora foi precisamente o que aconteceu com o pseudo-ballet Silicone Não. Com efeito, durante todo o espectáculo, juntamente com a banda sonora musical, os espectadores tiveram que gramar um texto longo, arrastado, interminável, que nada aliás acrescentava ao que se passava no palco, pois é efectivamente um texto oco e pedante, em que não sabemos que mais lamentar, se a anedota parva da claustrofóbica e do romeno, se a canção que serve de estribilho e dá o título ao espectáculo e que aliás o autor diz muito justamente que não é uma canção. E nós concordamos. É apenas um amontoado de palavras.
Palavras, palavras, palavras, ainda por cima palavras sem sentido, do conhecido homem de letras (e de palavras) Jacinto Lucas Pires. Palavras, palavras, palavras, próprias da elaborada e complicada inteligência de um menino de boas famílias, filho de um político de alto gabarito, um homem de direita com ideias federalistas em relação à União Europeia. Palavras, palavras, palavras, ainda por cima pretensiosas e tolas, de um menino mimado, longínquo descendente do grande Almeida Garrett.
Palavras, palavras, palavras, de um certo esquerdismo intelectualmente atrevido de uma mente pseudo-brilhante nascida num berço de ouro. Palavras, palavras, palavras, para quê palavras, quando no palco se dança e é importante que a atenção dos espectadores se concentre na dança. Acontece até que a maioria das pessoas não ligava nada às palavras e quanto ao que se passava em cena às vezes até dava vontade de rir.
Eis que sobreposta à cortina do palco aparece a imagem de um homem enorme completamente nu e alguns espectadores soltam uns risos abafados. E depois aparece a imagem de outro homem enorme completamente nu e mais adiante aparecem as imagens de muitos outros homens completamente nus. Aparecem tantos homens nus que até nos fazem duvidar da orientação sexual de quem os lá pôs.
Perante tal fartura de homens nus, umas jovens espectadoras que estavam ao nosso lado fartaram-se de rir e foi por pouco que a nós não nos deu também um ataque de riso, o que é inédito em ballet, pois o ballet é uma coisa séria e o riso é mais próprio das tascas, das classes baixas e das comédias de costumes. Por favor, não nos lixem. Isto não é ballet. O ballet é outra coisa, muito superior ao jogo de movimentos rasteiro e rasca e ao jogo de palavras idiota e retórico que é o Silicone Não.

A COMPANHIA PAULO RIBEIRO COM MEDEIA
NUMA PÉSSIMA RENTRÉE NO TEATRO VIRIATO

A rentrée no Teatro Viriato teve lugar no passado dia 21 de Setembro com a peça de teatro Medeia. O programa do espectáculo informou-nos que a peça exibida é uma produção da Companhia Paulo Ribeiro e da Companhia Chapitô. O programa do espectáculo informou-nos também que se trata de uma criação colectiva, com encenação de John Mowat.
A Medeia é uma peça de teatro de Eurípedes, que foi um famoso autor grego de tragédias. Foi mesmo um dos três tragediógrafos gregos mais importantes. Os outros foram Ésquilo e Sófocles. A estes três geniais autores de tragédias há que acrescentar o nome de Aristófanes, que é o autor teatral grego mais importante no que se refere à comédia clássica.
A Medeia é portanto uma tragédia e não uma comédia. No entanto, o espectáculo a que assistimos no Teatro Viriato com o nome de Medeia é na realidade uma comédia. Há algo, portanto, que não bate certo nesta história de uma tragédia que de repente aparece metamorfoseada em comédia. E o que é mais grave é que toda esta transformação parece ter sido feita deliberadamente, sem qualquer respeito por Eurípedes e pelo teatro grego.
Trata-se evidentemente de um crime doloso, como se diz em terminologia de direito criminal, com graves responsabilidades dos criadores colectivos, do encenador e das companhias produtoras. Realmente, não lembraria ao diabo transformar uma tragédia grega clássica numa comédia.
E para piorar as coisas, a versão de Medeia que o Teatro Viriato exibiu nem sequer é uma comédia no sentido nobre do termo. É uma reles comédia rasca, que convida ao riso sardónico e idiota. Podemos mesmo dizer que a Medeia que vimos no Teatro Viriato tem mais a ver com o lixo cómico televisivo do que com o teatro cómico de alto nível, que usa as situações cómicas com um mínimo de dignidade.
Ainda por cima, a Medeia da Companhia Paulo Ribeiro e da Companhia Chapitô é uma mistura de bailado e de teatro falado, em que os quatro bailarinos em cena são também intérpretes de diálogos falados e até de diálogos com vozes de animais. Ora a verdade é que um bailarino pode ser muito bom a dançar e ser péssimo a falar ou a ladrar ou a imitar as vozes de outros animais.
É precisamente o que acontece com a Leonor Keil, que é uma excelente bailarina e que é talvez uma das melhores bailarinas portuguesas da actualidade. E nós dizemos isto com conhecimento de causa, pois temos assistido a quase todos os espectáculos da Leonor. É realmente uma bailarina divina, deslumbrante, absolutamente fabulosa.
Ora a verdade é que na Medeia a Leonor Keil tem a pior prestação que lhe vimos fazer até hoje, pois como intérprete das partes pseudo-cómicas não tem nível nenhum e nem nas partes dançadas consegue sair da mediocridade, isto é, nem como bailarina se safa. Aliás com os outros intervenientes passa-se exactamente o mesmo. Todos estão abaixo de cão e alguns até ladram.
Já dissemos que Eurípedes foi um autor trágico e não um autor cómico. Convém já agora acrescentar que a tragédia grega apareceu na Grécia antiga em homenagem ao deus Dionisio e que tinha uma função eminentemente educativa. A sua finalidade principal era a catarse, mas também tinha a função de ensinar as pessoas a alcançar o seu metrón, isto é, a sua medida ideal, evitando assim penderem para cada um dos extremos da sua personalidade.
Quanto aos três principais tragediógrafos gregos, não viveram todos na mesma época e tiveram preocupações diferentes. Ésquilo tratou fundamentalmente de Zeus e dos restantes deuses do Olimpo. Sófocles preocupou-se principalmente com a vida dos homens, com a democracia e com a oposição entre a lei humana e a lei divina.
E Eurípedes, que Aristóteles considerava o maior dos trágicos, dedicou-se sobretudo ao estudo das emoções da alma, principalmente da alma das mulheres. No universo teatral de Eurípedes, a mulher podia fazer grandes coisas quando apaixonada ou tomada de ódio.
Infelizmente, uma das mais importantes e emblemáticas peças que Eurípedes escreveu, a Medeia, foi assassinada no Teatro Viriato nos dias 21, 22 e 23 de Setembro de 2006. Esperemos que o crime não se repita noutras salas de teatro ou que pelo menos a Companhia Paulo Ribeiro e a Companhia Chapitô, responsáveis pela produção do espectáculo, mudem o título da peça. É que é da máxima conveniência evitar que o teatro grego e Eurípedes apareçam associados a uma encenação da Medeia que é uma autêntica anedota.

2 comentários:

olga roriz disse...

Caro António
Sobre o seu texto gostaria de fazer 2 reparos:
Existe um confusão na utilização das palavras Ballet e Dança. Não existe Ballet Contemporâneo ou Moderno mas sim Dança Contemporânea e ou Moderna.
Por outro lado o Sr.Jorge Salavisa, ex-director artístico do Ballet Gulbenkian e Companhia Nacional de Bailado e actual Director do T.M.S.Luis, nunca foi coreógrafo ma vida (nem bom nem mau).
Um abraço
Olga Roriz

António Rocha disse...

Olga Roriz
Minha cara
Olga Roriz

É para mim uma honra e um motivo de grande alegria e felicidade que uma pessoa com a categoria da Olga Roriz tenha feito um comentário no meu blogue.
A Olga Roriz é uma pessoa que eu admiro muito. Gostei imenso do último espectáculo que a Olga Roriz apresentou no Teatro Viriato, com o nome Paraíso. Escrevi na altura uma curta crónica em que dizia que Paraíso era também ballet, por ter a fluidez e a elegância das grandes danças clássicas.
Claro que a dança actual é bastante diferente de O Lago dos Cisnes, que é, na minha opinião, o cume da perfeição na dança. Mas pode aproximar-se ou afastar-se e nessa medida a dança ser muito bela ou menos bela ou até vulgar.
Quanto a Jorge Salavisa, estava convencido de que também era coreógrafo. De qualquer maneira, as companhias em que é ou foi director artístico têm um nível muitíssimo grande.

Saudações de
António Rocha