O NOVO MERCADO 2 DE MAIO
Nas nossas inúmeras deambulações pelas ruas e pelas praças de Viseu, gostamos de nos misturar com o povo e sentir o seu hálito, o seu respirar, o seu suor e o seu perfume barato. E nesses sucessivos actos de amor com as gentes da nossa urbe, procuramos sorver esse panteísmo existencial que Walt Whitman, o célebre poeta norte-americano que Fernando Pessoa e Garcia Lorca tanto amaram, tão bem descreveu nos seus poemas à flor da pele e à flor do sexo.
Nesses enlaces prolongados com a nossa cidade, também procuramos ouvir o que dizem as pessoas, quais as suas opiniões sobre isto ou sobre aquilo, procuramos enfim apalpar e sentir o espírito dos viseenses, os seus anseios, as suas aspirações, ou mais simplesmente, as suas críticas e as suas queixas.
E foi assim que aqui há uns tempos, estando nós a contemplar pela centésima vez o novo Mercado 2 de Maio, umas pessoas nossas conhecidas que passavam na Rua Formosa aproximaram-se de nós e disseram-nos com ar convicto, apontando para o local: Isto parece o cemitério do Prado do Repouso.
No entanto, não escutámos só essa opinião, pois na Rua Formosa passa muita gente e ouvem-se as mais dispares opiniões sobre o sítio em causa, desde os comentários sobre as magnólias que estão a secar ou sobre os estabelecimentos que estão com as portas fechadas ou que só abrem para a Rua do Comércio; ou ainda sobre a iluminação rasteira, que no Mercado 2 de Maio mais parece a luz lúgubre de um filme de terror com cadáveres ao luar em noivados sepulcrais.
Há ainda outras pessoas que não se perdem em divagações cinéfilas e dizem muito sinteticamente que o novo Mercado 2 de Maio é uma autêntica merda. Mas o mais engraçado é que, mais recentemente, íamos nós a subir a Rua Direita, numa manhã de Sábado com muita gente a circular, fomos ultrapassados por umas pessoas que iam a afirmar, alto e bom som, que o Siza Vieira tinha construído um cemitério novo em Viseu.
Escusado será dizer que nós concordamos inteiramente com estas opiniões e também achamos que o novo Mercado 2 de Maio, tal como está, é um espaço morto, um verdadeiro cemitério. Um espaço que, pelos vistos, só serve e mal para nele se realizarem meia dúzia de espectáculos por ano e ainda por cima no sítio errado, pois esse sítio, a antiga Praça do Peixe, além de frio e ventoso, não permite à maior parte dos espectadores uma visão correcta, pois o terreno onde o palco se encontra situado não tem qualquer inclinação.
Numa das poucas noites deste último Verão em que houve animação no novo Mercado 2 de Maio, à saída de um espectáculo que lá tinha tido lugar, uma pessoa nossa amiga, com conhecimentos de arquitectura, perguntou-nos se tínhamos gostado do espectáculo e nós respondemo-lhe que não tínhamos visto espectáculo nenhum, só tínhamos visto umas cabeças a mexerem-se e pouco mais.
A pessoa em questão, que tinha desfrutado o espectáculo nas mesmas condições, também era de opinião que o palco estava no sítio errado e até acrescentou que o sítio mais apropriado para colocar um palco naquele lugar seria na parte de baixo do novo Mercado 2 de Maio, junto ao pórtico principal, com os espectadores virados para a Rua Formosa, pois aí o terreno tem alguma inclinação.
Por tudo isto se vê que a obra foi pensada apressadamente e deficientemente projectada ou então o Arquitecto Siza Vieira não se dignou descer do seu elevado pedestal e tomar em atenção e tentar corrigir este lamentável erro urbanístico. Tal como as coisas estão, com uma animação deficiente durante um curto período e sem qualquer vida durante a maior parte do ano, não seria realmente má ideia transformar todo aquele espaço num cemitério, o que seria facílimo e não subverteria grandemente o projecto de Siza Vieira.
Bastaria edificar uma capela no sítio onde está o palco e substituir as magnólias, outra ideia infeliz do arquitecto, por uns ultra-românticos e funéreos ciprestes, que são árvores mais apropriadas para um cemitério. Transformado em cemitério, o Mercado 2 de Maio teria enfim alguma utilidade. E com esta pequena alteração, viria ao de cima a verdadeira vocação de Siza Vieira, que é projectar espaços mortos.
OBRAS NO PRAÇA DO ROSSIO EM VISEU
As obras que tiveram lugar recentemente na Praça da República, mais conhecida por Rossio, foram objecto de várias críticas, a maior parte das quais desfavoráveis às obras em causa. Apesar de estarmos de acordo com a maior parte dessas críticas desfavoráveis, a nossa opinião não é tão radical e pensamos mesmo que essas obras trouxeram também coisas positivas. Entre essas coisas positivas, há que salientar em primeiro lugar a iluminação do painel de azulejos que limita a praça nos lados sul e leste. Trata-se de um painel de azulejos muito apreciado pelos viseenses e pelos turistas. Assim iluminado, também pode ser visto de noite em todo o esplendor das suas formas e das suas cores.
A outra coisa positiva que as obras recentes no Rossio trouxeram à praça viseense foi a iluminação da Câmara Municipal de Viseu. Situada no lado oeste da praça, o edifício onde funciona a autarquia viseense é um nobre edifício neo-clássico, construído no século XIX, quando o Rossio era um mero logradouro fora das muralhas e se chamava Passeio de D. Fernando. A iluminação frontal e lateral do edifício da Câmara veio dar-lhe à noite outro destaque e outra beleza, especialmente na Primavera e no Verão, em que a Câmara está escondida pelas frondosas árvores, com copas enormes, que povoam o Rossio.
A iluminação do painel de os azulejos e a iluminação da Câmara Municipal são portanto as coisas positivas que as recentes obras trouxeram ao Rossio.
Já em relação aos candeeiros que foram postos no Rossio, não podemos de maneira nenhuma concordar com a sua colocação, pois são muito mais feios do que aqueles que lá estavam. Além de emitirem menos luz que os anteriores, são demasiado altos para uma praça fechada, com muitas árvores e que ainda por cima é relativamente pequena. Com efeito, o Rossio não é a Praça da Concórdia, na cidade de Paris, ou a Praça de Tiananamen, na cidade de Pequim. Nessas praças, que são praças enormes e abertas, teriam pleno cabimento os candeeiros do Rossio e porventura candeeiros até maiores. Mas no Rossio esses candeeiros demasiado altos têm um aspecto verdadeiramente horroroso. Ainda por cima são mais que muitos e têm cinco lâmpadas cada um. Felizmente que durante o dia ninguém os vê, pois estão escondidos pelas árvores. Mas durante a noite são um autêntico desastre. Parecem horrorosos fantasmas a passearem numa praça que era muito bela e que agora, com tais candeeiros, de tornou muito feia.